>_> interessante parte 1

Yo minna \o/, bem estava eu passeando pela blogosfera xD, e encontrei uma matéria muito interessante, o titulo da matéria é: Superflat: A Reação do Pós-Modernismo Japonês ao “Boom” Otaku

artigo muito interessante do Lancaster  gostei e estou aqui repassando ‘-‘.

como o artigo é muuuuuuuuito grande >_> eu irei postar em duas partes manhã eu posto a outra parte xD

quem quizer ver mais alguns artigos dele: Maximum Cosmo

———————————————————————————————–

Superflat: A Reação do Pós-Modernismo Japonês ao “Boom” Otaku

Aviso agora antes que vocês liguem o vídeo: a cena acima é de uma vulgaridade imensa e definitivamente não é recomendável para menores de idade. Mas é necessária para introduzir o ponto da matéria – originalmente publicada na revista Neo Tokyo, mas que eu achei que valia a pena ser trazida a tona novamente: uma coisa que reparei ao longo de todo esse tempo é que muita gente que leu o artigo não entendeu muito bem o que é o superflat. Acredito que tenha contado pontos para isso um ranço acadêmico que eu não deveria ter deixado escapar – provavelmente eu estava já naquela época trabalhando no pré-projeto da monografia ou algo assim. Mas não acho que eu deva reescrever tudo: a idéia é trazer de volta o que já foi escrito.
Então, que seja. Eis a tradução para aqueles que ficam com dor de cabeça ao ler as legendas em espanhol:

Cena simples: a menina Poemi (Kobayashi) descobre que o vilão da história, finalmente revelado e sentado na cadeira, na verdade é seu objeto de afeição na escola, o garoto K-kun, e ela não entende, burra como é, o que ele está fazendo ali.

K-KUN: “Eu vim para invadir. Ou, mais especificamente, para abusar.”

POEMI: “Pode falar de forma mais simples? Ou anotar a informação no meu pager…”

K-KUN: “Olhe para a informação que o time de reconhecimento reuniu sobre este planeta.”

(aparece uma tela onde uma mulher seminua é mostrada)

K-KUN: “As mulheres da Terra, especialmente as japonesas, são muito boas.”

(na tela, uma chupa um picolé de forma erótica)

K-KUN: “Como você pode ver nesta imagem, elas tem um ótimo gosto.”

(aparece uma imagem de uma mulher gemendo, como as imagens em jogos pornográficos)

K-KUN: “Você pode fazer algo assim – e com facilidade.”

(surge uma imagem de uma mulher nua, deitada de bruços no chão, sendo pisada)

K-KUN: “É digno de se invadir. É digno de se abusar.”

(outra imagem de mulher em pose erótica. Kobayashi, claro, está confusa.)

POEMI: “Kobayashi não entende muito bem – eu não tenho um PC.”

K-KUN: “Eu não posso aceitar você como seiyuu (N. do T: atriz de voz).”

(um monte de faixas imobilizam os braços e pernas de Poemi)

POEMI: “Então você estaria atrás do corpo virgem de Kobayashi?”

K-KUN: “Olhe, idiota: Eu não tenho interesse num corpo barato como o seu!”

POEMI: “O que você está dizendo? Se Kobayashi pôr implantes, o tamanho do meus seios vai aumentar para 80 cm, droga!”

(K-kun, em sua cadeira de vilão, levanta o dedo para apontar algo)

K-KUN: “O que eu busco é aquilo:”

(de repente, todo o resto do elenco feminino da série está presente na cena, amarrado nas poses mais humilhantes)

POEMI: “Ohh!? Esta é uma cena de Fan-Service? (…)”

K-KUN: “O que acha? O conteúdo é divertido para um vídeo, não?(…) Abuso, abuso, nada pode superar isso, a cultura japonesa é maravilhosa! Vamos atingir as estrelas, japanimation! TENTÁCULOS! MAIDS! MULHERES DE ÓCULOS! MENINAS DO JARDIM DA INFÂNCIA! CONSOLOS ASSUSTADORES! SEIOS GIGANTESCOS!”

(ao dizer cada uma dessas frases, aparece uma imagem correspondente de uma delas trajada de forma relativa ao fetiche apontado em cada palavra. K-kun, como um mestre de cerimônias ensandecido, corre em frente a elas e abre os braços – para de repente se dirigir AO PRÓPRIO ESPECTADOR NA TELEVISÃO)

K-KUN: “Como ficou? Como elas estão? ISTO é o que vocês rapazes querem, certo?”

(K-Kun faz uma pose ridícula de efeito ao dizer isso e surgem muitas mãos vindas de fora da televisão, como se pertencessem aos próprios espectadores, que batem palmas em aprovação, do tipo “Muito bem”, “É isso aí”. Em seguida, como um vilão de anime, ele grita ensandecidamente:)

K-KUN: “Agora, vamos em frente! Apertem, amarrem, machuquem e gemam! Sofram, arrepiem-se em êxtase, enfiem alguma coisa! ISSO É CULTURA!”

———————————————————————————————–

A cena que vocês viram logo acima não foi extraída de um hentai (anime/quadrinho pornô). Sua origem é a série em OAVs Puni Puni Poemide Shinichiro Watanabe – talvez a mais devastadora paulada que a cultura otaku já recebeu em forma de animação. Puni Puni Poemi na verdade é uma brincadeira metalinguística onde a protagonista pede para ser chamada pelo nome de sua dubladora (Kobayashi), e os personagens são todos derivativos – o melhor exemplo é a relação entre Poemi e sua melhor amiga, a menina Futaba, que ecoa a amizade suspeitíssima de Tomoyo porSakura em Sakura Card Captors (se olharmos, perceberemos imediatamente que Futaba é a Tomoyo com um sinalzinho no rosto e enfeites de cabelo estrategicamente inseridos para não haver processo por plágio). Só que Futaba é mais do que escancaradamente lésbica e sua atitude é, digamos, bem mais perigosa do que a, hm, “adoração” em níveis respeitosos (eu disseRESPEITOSOS, não inocentes; Sakura Card Captors está longe de ser um produto inocente) que sua personagem inspiradora nutre pelo seu respectivo alvo.
Aqui, não tem erro: toda a iconografia da cultura do otaku é usada para encher uma luva de boxe e mirar justamente em seus aspectos mais negativos, os
Poemyfetiches e distorções que alimentam toda uma série de reflexos na indústria de anime e mangá que afetam consideravelmente a percepção que temos da mesma. E ao distorcer, via caricatura, esses elementos, eles são usados como elemento de choque (e, no caso, de riso), expondo justamente a natureza sexual que é muito escamoteada pelos fãs deste ou daquele produto em defesa da “inocência” do mesmo – mas que indubitavelmente existe(sem falar de quando o fã reconhece esse elemento, mas usa essa “inocência” para justificá-lo). Aquele que nunca encontrou um fanart lésbico de Tomoyo e Sakura na Internet que atire a primeira pedra (e isso vale para outros elementos, como a relação perigosíssima entre a pequena Rika e o professor Terada, que não encontra correspondente em Puni Puni Poemi, mas é o mesmo tipo de “elemento perigoso”). A série da Clamp cuida de estimular esse tipo de reação dos fãs, embora não abertamente. E Poemi escancara isso com uma pedrada ao retratar a fixação de Futaba por sua amiga – sem falar do verdadeiro tapa que a cena acima desfere no fã típico que consome o material derivado dessas fixações estéticas.
Poucas coisas são mais Superflat do que isso.

O que é Superflat?

De uma forma simples: OSuperflat é um movimento estético pós-moderno que surgiu dentro das artes plásticas e que encontrou eco nos mangás e nas animações – até porque seu pressuposto é de que a cultura dos animes e mangás é a cultura japonesa de nosso tempo. Ele se vale dos elementos de fetiche que caracterizam os animes e mangás dentro da cultura otaku para questionar o contexto social que deu origem aos mesmos fetiches. Ou melhor dizendo, ele reprocessa esses elementos para devolvê-los desconstruídos para aqueles que os consomem originalmente (simplificando: ele usa a caricatura dos clichês para desmontá-los, questioná-los e mostrar o que se esconde por trás deles. Na época em que escrevi essa matéria, eu não conhecia Sayonara Zetsubou Sensei, de Koji Kumeta, mas ele é um bom exemplo desse processo de desmonte).
Vamos explicar rapidamente o que é pós-modernismo para podermos prosseguir com a matéria de forma que ela faça sentido: Ele é um movimento com várias correntes e sem uma proposta unificada, salvo na sua crítica aoKatamarimodelo tradicional de racionalismo nas artes, na literatura e nas ciências. Para os fins que nos interessam, podemos dizer que o pós-moderno apresenta um cenário onde o método de viabilização de idéias não importa – e isso deu margem aos samplers dos anos oitenta, a fragmentação estética do videoclipe, a multireferencialidade – onde se pressupõe que você saiba do que está se falando ao se povoar uma obra de referências – e, porque não dizer, a própria difusão do mangá como estética fora do Japão, jamais possível em outro contexto. Graças a ela, podemos dizer que a nossa cultura de massa (pós-moderna por excelência)tende a se alimentar do que veio antes como uma cobra que devora o próprio rabo. Em miúdos: vale tudo, nada de novo surgirá, só resta reprocessar tudo o que já foi feito e dane-se quem reclamar (se bem que pessoalmente eu acredito que pós-modernidade é meio que o equivalente cultural ao “a história acabou” do Francis Fukuyama. E o 11 de Setembro jogou na cara do mundo o ridículo dessa afirmação).
O fato é que vivemos, respiramos, praticamente comemos a cultura de massa ao nosso redor. E isso acaba por ter repercussões sociais. A cultura otaku no Japão é um claro exemplo disso, assim como os clichês básicos dos animes e mangás que os alimentam ou não. E dito isso, vamos ao que interessa.

Achatamento Cultural

O movimento Superflat foi lançado pelo artista plástico Takashi Murakami (autor do simpático curta acima, feito para a Louis Vutton. Repararam na ambiguidade cínica do final?)ele próprio uma testemunha e participante do primeiro boom otaku – o gerado por séries como Patrulha Estelar e o primeiro Mobile Suit GundamO ponto do manifesto de seu movimento artístico é que, no Japão, a cultura pop de animes e mangás se imiscuiu de tal forma na vida

Superflatcotidiana que influenciou as artes plásticas, o design, a cultura pop, as artes decorativas, sendo achatado em um conjunto único ao qual todos pertencem. “A nova geração(de artistas) não pensa sobre o que é arte ou o que é ilustração. Seu trabalho não têm gênero”, define Murakami. Entretanto, esse “achatamento” tem um outro lado embutido: a ausência de profundidade, uma vez que quem serviu de liga para todo esse conjunto de manifestações culturais seria antes de mais nada, a cultura de consumo – que é uma cultura da superficialidade por natureza (por isso, embora o melhor termo em português seja “compactação”, estamos usando o termo “achatamento”, mesmo; sem isso, a ambiguidade de conotações do “flat” se perderia no contexto deste texto). Novamente, passemos a palavra a Murakami:

“O povo japonês é alimentado por televisão e pela mídia em geral 24 horas por dia. Agora, temos uma chance de pensar: ‘O que é minha vida?’ A cultura de consumo aponta para uma única direção, sem evoluir. Nos anos oitenta, os japoneses não pensavam sobre o significado da vida por conta de sua forte cultura de consumo. Agora, as pessoas estão percebendo que existe um fim. Elas têm que pensar nisso mais do que no passado. Os jovens estão olhando para fora dessa cultura de consumo e perguntando ‘O que é a vida?'”


SuperflatO termo em si seria cunhado pelo próprio Murakami como podemos ver pelo livroLittle Boy: The Arts of Japan’s Exploding Subcultureque acompanhou a exposição “Superflat”, exibida no Museu de Arte Contemporânea da Califórnia em 2001. Mas inicialmente, ele era dirigido à sua própria arte, e depois estendido a vários outros artistas plásticos dentro do cenário artístico japonês… só para o rótulo se tornar maior e passar a abarcar animadores como Koji Morimoto (melhor conhecido por um dos episódios de Animatrixe por seu trabalho em curtas, comoFranken’s Gears, um dos episódios de Robot Carnival, longa produzido por Katsuhiro Otomo e exibido na Cartoon Network no começo dos anos noventa – além do experimental Noiseman Sound Insect), e quadrinhistas como Hitoshi Tomizawaautor de Alien 9 e do cruel Milk Closethá até quem considere superflat artistas musicais como Cornelius (cujos cds foram lançados aqui pela Trama), com seus desconjuntamentos musicais, reconstruções referenciais e letras como “Nova Máquina Musical / Em 2001, a NASA criou a máquina / Em 2010, a máquina está quebrada de todo jeito” (New Music Machine, do disco “Fantasma”).

Com o tempo, artistas que se aproximam do não convencional e da crítica direta aos clichês tanto da indústria quanto da cultura otaku em geral passaram a ser arrolados entre as fileiras do Superflat, como Hideaki Anno (em Furi Kuri) e Shinichi Watanabe (do citado Puni Puni Poemi). E aqui nós entramos num ponto necessário.

A Crítica ao Moe

Junko MizunoUma olhada nos trabalhos de boa parte dos artistas superflat mostra uma distorção perversa do que é “bonitinho”. Muitas vezes os trabalhos passam a linha do grotesco. O trabalho de Junko Mizuno é um bom exemplo dessa distorção e da apropriação estética de conceitos superflat, mas de modo geral, a raiz desse tipo de atitude em boa parte desses artistas é justamente o reprocessamento crítico do conteúdo visual. A resposta ao Moe é um bom exemplo disso.
O Moe é um termo surgido dentro do meio otaku que é difícil de definir em palavras, mas fácil de reconhecer quando aplicável visualmente. “Engraçadinha” não é o suficiente para definir o conceito. Basicamente ele é aquele misto de vulnerabilidade infantil e fetichização sexual feita para despertar um desejo protetivo em quem o vê. Defeitos pequenos que estimulam essa sensação de que algo “Moe” é feito para ser cuidado, como ser atrapalhada ou distraída, só aumentam essa sensação. Entretanto, boa parte dessas meninas bonitinhas e provavelmente cheia de acessórios como orelhas de bichinhos e roupas cheias de babados também atende a um desejo sexual claro, como mostram os imensos closes em calcinhas e bustos que também são associados a essas meninas bonitinhas, indefesas e imersas em trejeitos infantis.

Nomes como Hayao Miyazaki se insurgiram contra o Moe e suas conotações de infantilização e submissão sexual femininas. Opositor visceral da visão da mulher na cultura otaku, seu comentário a respeito da fetichização da “bonequinha engraçadinha” foi:

“É algo difícil. Elas se tornam imediatamente objetos de fetichismo lolicon (N. do R.: Complexo de Lolita, ou aquela tendência de personagens femininas ao mesmo tempo infantis e sexuais que permeiam o imaginário otaku)De certa forma, se nós queremos retratar alguém que é uma pessoa afirmativa para nós, não temos escolha a não ser fazê-la adorável. Mas agora, temos muitas pessoas que sem o menor pudor as retratam como se eles apenas as quisessem como animaizinhos de estimação e as coisas estão piorando mais e mais.”

Milk ClosetTalvez por isso mesmo o moe e suas meninas indefesas sejam um alvo de pedradas tão óbvio para os artistas superflat. A violência e distorção com que essas figuras são retratadas parecem menos alvejar de modo sadomasoquista as meninas em si do que a sua fetichização. Em Milk Closet, de Hitoshi Tomizawa, meninas bonitinhas na mesma faixa etária das crianças de Digimon e congêneres são mergulhadas, de forma dura, em uma trama de ficção científica sobre dimensões alternativas violentas e grotescas, mas paradoxalmente até realistas se pensarmos no lado desagradável e mais bizarro que encontramos na vida animal. Mesmo o molde das meninas afáveis mas valentes cunhado por um Hayao Miyazaki (visto de forma um tanto distorcida na sua apropriação por certas alas da cultura otaku) está sujeito à desconstrução: No jogo Linda 3 para PC/Playstation,somos apresentados pelo artistaTatsuuya Tanaka a uma personagem-título que se apropriou muito da iconografia miyazakiana para suas heroínas. Entretanto, o universo ao redor dela mais e mais se torna sombrio, e ao longo do andamento do jogo, ela está sujeita à situações que quebram justamente a aura de inocência Linda 3e afabilidade do universo cunhado pelas obras da Ghibli, como se partisse dos conceitos prévios do jogador para demoli-los um a um, em ambientes que mais e mais se tornam infectos, corrompendo a inocência via fanservice e se valendo de uma carga de violência e crueldade planejada para desestablizar expectativas.
Parece compreensível que logo esse tipo de universo se torne igualmente um alvo: uma das teorias não para o surgimento do nome Moe, mas para as raízes do seu surgimento em si, aponta para a personagem Clarisse do longaO Castelo de Cagliostro – a mais notável obra de Miyazaki pré-ghibli. Clarisse foi a primeira personagem feminina a ser parodiada em doujinshis
(fanzines), o que se tornou uma prática comum. Tanaka (que assina seu trabalho com o sugestivo pseudônimo de Cannabis e também participou do fundamental Noiseman Sound Insectde Morimoto) sabe do que está falando: ele esteve envolvido na produção, como desenhista de produção, do clássico anime Nadia – the Secret of Blue Water,da Gainax, que em muito soava como uma elegia aos antigos animes da Nihon – e de certa forma, Nadiatambém representa a apropriação (em tons reverenciaisdesse tipo de iconografia clássica por meio da própria cultura otaku que deu origem à Gainax.

De Excessos e de Paradoxos


SuperflatIsso tudo nos leva a um outro lado do Superflat: o choque pelo choque. Embora nem todos os artistas posteriores arrolados ao movimento se valham dele, os artistas plásticos que iniciaram todo esse processo podem ser marcados, sim, por uma postura visceral demais e um tanto extrema. Na exposição “Superflat” de 2001, se destacava visualmente uma estátua chamada Lonesome Cowboy. Ela não pode ser mostrada aqui sem censura: mostrava um personagem masculino, típico herói de shonen mangá, completamente nu e com o órgão sexual ereto. Ele ejacula em um jato gigantesco, que o circunda como se fosse aquelas demonstrações de poder como a Cólera do Dragão de Shiriyu (ou o Dragão Marinho de Marine emRayearth, que mesmo em um shoujo não deixa de ser um elemento estético importado doshonen). Não é preciso pensar muito para entender a intenção do autor – explicitar as conotações freudianas e fálicas das convenções do shonen mangá.Mas isso também cria um abismo e um problema – muitas vezes, a crítica feroz se confunde com a própria exploração sensacionalista do tema, e a linha entre Superflatambos se torna muito tênue. A mensagem pode se perder com muita facilidade. O próprio site de Murakami, aonde ele divide espaço com outros artistas superflat, mostra bem essa coesão entre o bonitinho entre o grotesco, que boa parte das vezes funciona admiravelmente bem – e boa parte das vezes é assustadoramente agressiva.
Contradição parece ser uma palavra chave aqui – até porque ela é a chave da compreensão do movimento. No superflat, o bonitinho é exagerado para agredir o bonitinho, o fan-service é exagerado para agredir o fan-service, e o próprio superflat,ao criticar a cultura otaku, se imerge dela a ponto de fazer parte da mesma
(talvez como seu filhote mais rebelde). Os próprios membros dosuperflat nada mais fazem do que ver a própria cultura pós-guerra como superflat, e em tese nada mais fazem do que examinar, via caricatura, distorção e sátira, essa mesma cultura. Ao definir seu trabalho como superflat, eles se colocam conscientemente dentro do mesmo contexto que criticam.
E isso faz sentido. A própra cultura japonesa pós-guerra, e aí incluímos sim a
cultura dos animes e mangás que gerou a subcultura Otaku, nasceu DIRETAMENTE DA CULTURA AMERICANA E SUA INFLUÊNCIA PESADA NO JAPÃO.

Superflat

Antes que alguém fique revoltado, vamos dar a palavra ao crítico cultural japonês Hiroki Azuma,PhD. na Universidade de Tóquio e professor na Universidade Internacional do Japão. O texto a seguir é parte da transcrição de sua palestra no Museu de Arte Contemporânea da Califórnia, durante a exposição Superflat.

“(…) A assim chamada ‘Tradição Japonesa’, por exemplo a literatura, as artes clássicas e o sistema Monárquico é factualmente uma construção historicamente nova, posterior à Restauração Meiji (N. do R.: de 1868 até 1912), e agora o Japão foi tão profundamente Europeizado/Americanizado que qualquer retorno nostálgico a uma niponicidade tradicional, original ou “pura”, soa como uma farsa. Você pode encontrar facilmente nos filmes e quadrinhos como os típicos cenários Japoneses estão hoje em dia, povoados por (lojas como) Seven-Eleven, McDonalds e Denny’s, quadrinhos, computadores e celulares… todos de origem (culturalmente) americana. Em adição a tudo isso, meu ponto aqui é que a cultura otaku é a que reflete mais claramente essa condição misturada, híbrida e bastarda; isto é, que o paradoxo de que não podemos encontrar nenhum tipo de niponicidade sem a cultura pop americana do pós-guerra. Eu acho que a maior parte dos intelectuais japoneses sentem uma forte resistência psico-analítica em admitir essa condição.
A cultura otaku em geral é associada a um tipo de sucessão cultural à tradição japonesa pré-moderna, principalmente a tradição (da era) Edo. (…) Entretanto, a realidade é mais complicada. Por mais atrativa ou persuasiva que pareça a similaridade entre a cultura Otaku e a cultura Edo, não deveríamos esquecer o simples fato de que a cultura Otaku não poderia ter existido no final das contas sem a influência das subculturas americanas. Mangá, anime, tokusatsu (filmes com efeitos especiais), romances de Ficção Científica, jogos de computador, todos são de concepção americana e importados dos Estados Unidos com a política de ocupação pós-guerra. A cultura otaku não deveria ser vista como um sucessor direto da pré-modernidade japonesa, mas como um resultado da recente “domesticação” da cultura americana no pós-guerra (japonês), que se desenvolveu simultaneamente ao rápido crescimento econômico e a recuperação da auto-confiança nacional durante os anos 50 e 60. Nesse sentido, a cultura otaku é essencialmente nacionalista embora esta característica e expressão esteja distante do tradicional nacionalismo comum. (…) A cultura otaku é um tipo de expressão do nacionalismo Japonês pós-guerra embora suas bases na verdade estejam invadidas e traumatizadas pela cultura pop americana. Este paradoxo leva obrigatoriamente aos artistas e escritores otakus a serem distorcidos, ambivalentes, complicados e se expressarem através de um certo tipo de expressão auto-caricaturizada de niponicidade.”

Sendo assim, o Superflat é reflexo de um incômodo intrínseco e indissociável à própria cultura que lhe deu origem – e, não custa repetir, do qual faz parte. O que explica sua própria reação visceral (e até mesmo excessiva em certos momentos) a essa natureza “caricatural” e infantilizadora presente no meio que os gerou.

Final da parte 1

>_> graaaaaaaaaaaaaaande de mais >_>


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: